Como educar crianças autoconfiantes (2022)

O que podemos fazer para ajudar nossos filhos a ter consciência de seus potenciais e tranquilidade para colocá-los em prática

Qualquer família razoavelmente saudável deseja que seus filhos sejam indivíduos seguros, que acreditem em seus potenciais e os coloquem em prática. Ou: que sejam pessoas capazes de “tornar-se parte da sociedade sem uma perda excessiva de impulso e criatividade”, como descreveu o papa do desenvolvimento infantil, Donald Winnicott (1896–1971) no texto “A construção da confiança”, que faz parte de “Conversando com pais” (Martins Fontes, 1999).

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Mas o que nós, adultos, podemos fazer para contribuir com isso? Ou, como o próprio Winnicott se pergunta em outro artigo da mesma publicação: “O que gera a qualidade a que chamamos autoconfiança? Trata-se de um fator inato ou pessoal ou é o ensinamento moral? Deve existir um exemplo a ser copiado? O ambiente externo deve prover algo para produzir o efeito desejado?”

A resposta é simples: uma dose de cada um desses componentes. Mas colocá-la em prática talvez não seja tão fácil assim. A construção da autoconfiança começa, afinal, desde o nascimento da criança e depende, é claro, da relação íntima que o bebê estabelece com a mãe, o pai e cuidadores. “Os primeiros olhares dos pais sobre a criança já têm influência sobre esse processo, quando reconhecem naquele ser tudo de maravilhoso que existe. É um olhar carregado de energia, libido e amor, o que faz com que ela se sinta assegurada e amada”, diz a analista junguiana Ceres Alves de Araújo, professora e pesquisadora do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP.

Há mais de três décadas atendendo crianças e adolescentes, ela reforça que esse olhar não é apenas simbólico. Trata-se do olho no olho mesmo, que é capaz de transmitir esses sentimentos e sensações já nas horas iniciais da vida. “O primeiro foco do bebê fica a 30 centímetros dos olhos, distância entre ele e a mãe quando está no colo ou mamando.” Nessa fase, as condições ambientais também são importantes. Ou seja, é preciso garantir alimento, calor e som na medida para que proporcionem uma experiência física de conforto à criança. Quanto mais se sente segura, melhor se desenvolve.

Para criar seres autoconfiantes é necessário festejar conquistas. Em uma mão, reforço positivo; na outra, limites

“Para criar seres autoconfiantes é necessário ainda festejar as conquistas: do primeiro passo às boas notas na escola”. Mas sem exagero. “Em uma mão damos o reforço positivo e, na outra, mostramos os limites”, alerta Ceres. E isso vale para o resto do período em que os filhos estão sob tutela dos pais, sobretudo quando são adolescentes e testam nossa sanidade desafiando todo tipo de barreira e, muitas vezes, colocando a própria vida em risco.

A tarefa árdua e contínua dos pais, educadores e adultos próximos é sempre deixar claros quais são os riscos – do passo em falso no degrau quando ainda não dominam o corpo por completo ao abuso de drogas mais tarde – e delimitar até onde podem avançar.

Novos horizontes

À medida em que deixam de ser bebês e o desenvolvimento avança, porém, o papel parental de reforçar as conquistas perde um pouco o espaço. “É preciso sair deste lugar, deixar de buscar confiança no olhar do outro”, diz a psicanalista lacaniana Thais Garrafa, coordenadora do curso de pós-graduação em Psicanálise na Parentalidade e Perinatalidade do Instituto Gerar, em São Paulo. Uma vez que a criança já sabe que a família e o ambiente lhe garantem segurança suficiente, é a hora de explorar as suas próprias capacidades de desbravar o mundo. Chegou o momento de viver certo grau de insegurança para, em seguida, perceber que dá conta.

Assim, é fundamental criar e facilitar situações em que os pequenos possam exercitar a própria autonomia. “Uma criança autoconfiante sabe de suas capacidades e nosso papel é ajudá-la a testar e conhecê-las”, diz a psicopedagoga Ana Paula Yazbek, diretora pedagógica e sócia do Espaço Ekoa, em São Paulo. É quando, por exemplo, um adulto a incentiva a vestir uma peça de roupa sozinha ou, no caso das menorzinhas, faz um convite para que ajude nesse momento, encaixando a cabeça e os bracinhos na camiseta.

Essas situações requerem uma boa dose de sensibilidade dos adultos para perceber o limite tênue entre a oferta de autonomia e a negligência, deixando que a criança realize atividades para as quais ela não está preparada ainda. “A ausência de ajuda pode ser percebida como certo abandono”, diz Ana Paula.

Esse processo pode começar cedo, quando, já por volta dos três meses, o bebê percebe que é capaz de suportar – ainda que por instantes – a fome. E continua no passo a passo natural do desenvolvimento. Primeiro, no prazer que as próprias conquistas, geralmente físicas, proporcionam: sentar-se sem ajuda, engatinhar, caminhar, encaixar tampas em seus respectivos potes e por aí vai. “Inicialmente, sentir a agilidade do corpo ajuda a reforçar a sensação de si mesmo”, afirma Ceres.

A confiança é construída no dia a dia, em ações sutis, como simplesmente estar verdadeiramente disponível

Embora não sejam mais o centro de tudo, os pais e cuidadores não devem sair de cena. Pelo contrário. “A confiança é construída no dia a dia, em ações sutis, como simplesmente estar verdadeiramente disponível”, diz Ana Paula. É quando, por exemplo, ficamos no mesmo ambiente, talvez em silêncio, apenas contemplando uma brincadeira. Ou ainda lendo um livro juntos, jogando algum jogo.

Quando não é tão fácil assim…

Garantir condições para que nossos filhos sejam autoconfiantes significa servir de esteio quando algo falha. “Também é importante mostrar que existe uma distância entre o ideal e o real”, diz Thais Garrafa. Nem todos os bebês andam na idade esperada, nem toda criança tem boas notas em matemática ou constrói amizades com facilidade. Seja por motivos fisiológicos ou ambientais, quando isso acontece, é nosso papel oferecer ajuda real, seja para ajustar as capacidades, seja para diminuir as expectativas e, consequentemente, as frustrações.

Na escola, por exemplo, é esperado que uma criança se saia bem. Não precisa ser o melhor da sala, mas o normal é que tenha um desempenho, no mínimo, mediano. E, se isso não acontece, é a hora do adulto entrar em cena. “A autoestima e, portanto, a autoconfiança ficam comprometidas quando alunos percebem que vão muito mal nos estudos”, alerta Ceres.

Aí é preciso entender de onde vem a dificuldade: se existe algum tipo de distúrbio, como dislexia e déficit de atenção, se a visão está alterada ou se é necessário algum tipo reforço dos próprios pais ou de aulas extra. “Aí podemos transformar a dificuldade em uma vantagem, já que, quando consegue melhorar seu desempenho, a criança pode desenvolver resiliência”, diz a psicóloga.

O mesmo vale para a interação social. É esperado que crianças e adolescentes tenham um círculo de amigos com quem convivam. Indivíduos extremamente tímidos, que têm dificuldade de, por exemplo, participar de festas, precisam de apoio emocional.

E quando tudo vai por água abaixo?

Alguns eventos da vida podem minar a autoconfiança até das pessoas mais bem resolvidas. É o caso dos traumas, ou experiências muito negativas, por vezes vividas com terror. Um exemplo: no primeiro dia na escola, a criança se desgarra da mãe com facilidade. Horas depois, porém, acaba caindo e se machucando. É possível que, no dia seguinte, ela não volte tão facilmente e precise que a mãe fique mais um pouco por ali até que ela recupere a confiança no ambiente.

Uma condição que abala a autoconfiança é quando a pessoa começa viver situações repetidas de desvalorização

“Outra condição que abala a autoconfiança é quando a pessoa começa a colecionar sucessivos fracassos ou viver situações repetidas de desvalorização por parte de pessoas quem ela gosta”, diz Ceres Alves de Araújo. Pode ser, por exemplo, uma série de notas baixas na escola. E, aqui, uma ênfase na repetição desses eventos. Situações negativas isoladas não deveriam apresentar risco para alguém que tem certa segurança em seus potenciais. Para recuperar a autoconfiança, é importante virar o jogo. Ou seja, oferecer suporte para que a criança consiga, por exemplo, passar a ir bem na escola.

Meninos de rosa, meninas de azul

Divisões muito estanques de gênero, que resguardam ambientes, profissões e comportamentos só para meninos ou só para meninas, além de pra lá de antiquadas em 2022, também podem colocar em risco a autoconfiança de ambos. Em seu manifesto “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras, 2017), a escritora Chimamanda Ngozi Adichie conta sobre o dia em que, passeando no shopping, observou uma menininha tão encantada com um helicóptero de brinquedo que pediu à mãe se podia ganhar um. Como resposta, ouviu: “Não. Você tem suas bonecas”. E respondeu: “Mamãe, é só com boneca que eu vou brincar?”

Na sequência, Chimamanda se pergunta então “se a menininha não teria virado uma engenheira revolucionária se tivessem dado a ela a chance de explorar aquele helicóptero”. Para a escritora: “Se não empregamos a camisa de força do gênero nas crianças pequenas, daremos a elas espaço para alcançar todo o seu potencial”. O alerta vale para todo mundo: meninos, meninas e menines.

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Author: Twana Towne Ret

Last Updated: 12/23/2022

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